segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Amar a Música, por Pierre Fournier

O grande violoncelista Pierre Fournier era conhecido por sua elegância e maestria ao tocar, mas também por saber usar muito bem as palavras. 


Abaixo um texto publicado em 1950 na revista Suiça Les Grands Interprètes: 

Amar a Música não é apropriar-se dela, não é usá-la à sua própria imagem, mas sentir-se sempre responsável pela sua vida, pelo desenvolvimento de todos os seus caminhos por meio de um trabalho incessante de nossas próprias possibilidades técnicas, sempre tão frágeis, tão facilmente comprometedoras. E isto ligado a um sentimento salutar de humildade, de força, de afeto, sem os quais todo esforço criativo se esteriliza.

Amar a Música é fazê-la amar-se pelos outros para estabelecer-se entre todas as pessoas sensíveis à sua beleza, criando laços indissolúveis, num raio sem fronteiras.


Amar a Música tem a sua grandeza, mas uma grandeza que precisa ser conquistada a preço de trabalho contínuo, de um trabalho ingrato e obstinado, de desencorajamento e de dúvidas. É uma luta quase sempre cansativa contra a ignorância, a vaidade freqüentemente encontrada, mas é também uma fonte de alegria violenta e austera; pois a aceitação dos reveses, de certos defeitos,é o caminho mais seguro para uma vitoria sobre si mesmo e uma submissão à arte.

Um artista deve descobrir na solidão a sua própria linguagem de expressão. Mesmo quando surgem estéreis discussões, durante as quais deve deixar sempre a última palavra para seus interlocutores, para talvez melhor convencê-los, deve usar com muita eloqüência e de forma verdadeiramente espontânea a linguagem da música, com uma lucidez rigorosamente absoluta. E quando tiver aprendido a reconhecer seus próprios erros, poderá certamente adquirir aquela serenidade que dá o privilégio de admitir e de amar toda concepção diferente da sua, quando seja provinda de uma sinceridade absoluta.

Amar a Música é constantemente se atormentar, pois por ela temos nossos próprios sonhos, ilusões e desejos que aprecem nunca poder realizar-se completamente. Isso gera sempre uma melancolia, mas uma melancolia que pode ser também uma espécie de alegria, que se nós conseguirmos possuir à força de ter desejado tudo, poderá então ter seu valor miraculoso.


Tudo que é aspiração fica fora de nossas expectativas, circundada por dificuldades como matiz que colore nossa vida inteira. Tal é a natureza do artista, de sempre lamentar por aquilo que o impulsiona além de sua possibilidade numa expectativa perpétua. Talvez depois de tudo passado seja mais gratificante que o sonhado ou imaginado.

Amar a Música é enfim, para aquele que a serve, não parar nunca. Uma vez chegando, é necessário saber enxergar a cada dia através do horizonte sem limites e sempre o mais distante da perfeição.
Como soube exprimir Stevenson: ‘É melhor lutar esperançosamente do que desistir’.


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