segunda-feira, 18 de março de 2013

Quer formar um grupo musical? Dicas para começar!


Excelente texto do Gustavo Henrique Francisco, colega professor Suzuki e flautista do grupo Quinta Essentia, quarteto de flauta doces de destaque no Brasil. 
Vale à pena ler e também conhecer o trabalho do Quinta Essentia.  
Boa leitura! 
Algumas pessoas têm perguntado qual o caminho para se formar um grupo de música de câmara atuante. Todos sabemos que no Brasil isto não é fácil. Quem possui um emprego fixo sabe também que não é fácil trabalhar para outras pessoas que não compartilham dos mesmos objetivos, e os obrigam a uma relação de trabalho hierárquica. Vou colocar aqui algumas coisas que penso ser importante.
Primeiramente, é importante encontrar pessoas que pensem parecido, ou seja, que tenham as mesmas vontades, os mesmos desejos em relação ao trabalho, e que estejam afim de tocar (exclusivamente). Neste ponto, existem pelo menos duas alternativas em relação aos objetivos: manter um grupo fixo com ensaios regulares (esta foi a escolha do Quinta Essentia Quarteto) ou juntar pessoas para tocar para um único concerto. A primeira escolha poupa muito trabalho quando pensamos a longo prazo, e embora a segunda escolha pareça dar menos trabalho com menos compromisso, é muito mais difícil de se conseguir trabalho para o grupo, pois a produção tem sempre que começar do zero a cada novo trabalho, e muitas vezes não agrega credibilidade ao trabalho.
No Brasil, geralmente os grupos se formam pelo segundo método. Só reúnem-se para tocar quando tem algum dinheiro em vista, o famoso “cachê”, por exemplo, e não estão afim de ter um trabalho regular, um momento para trocar ideias e construir juntos o trabalho que vai ser apresentado por todo o grupo.
A vantagem dessa escolha, ainda me refiro ao mundo do cachê, é pouca dedicação envolvida, e muitos músicos usam como argumento que, por já terem muita técnica, basta um ou dois ensaios para que o repertório esteja “pronto”.
A desvantagem é a energia gasta na produção do grupo, que a cada concerto começa tudo do zero. Precisa encontrar os músicos, definir dia(s) e horário(s) para o(s) ensaio(s) compatíveis com a agenda de todos envolvidos, fazer fotos do grupo (afinal, nada pior que um grupo que divulga uma foto com músicos diferentes daqueles que se apresentam), gravar o ensaio para poder mostrar trabalho para o patrocinador, escrever sobre o projeto, e muito mais que só quem faz este tipo de trabalho sabe como é.
Falo agora da primeira opção, que é a que tenho maior experiência.
Essa parte do “estar afim de tocar” é extremamente importante porque nos primeiros anos vocês terão muito trabalho, investimento, e pouco retorno. Normalmente começamos a estudar música porque gostamos, mas ao profissionalizarmos muita gente se esquece que no início gostávamos de tocar. Nenhuma empresa nasce sem investimento, por que seria diferente com um grupo musical? Quando gostamos, tudo isso é feito por prazer, e os frutos serão colhidos em seguida.
Bem, por isso, é importante que esteja claro para todos que terão que investir muito, para que no futuro tenham retorno disso.
Tendo as pessoas para tocar, é importante escolher um dia da semana, (ou dois, ou mais), para deixar marcado um ensaio regular. São nas reuniões e ensaios que a identidade do grupo se consolida. Se os ensaios são apenas esporádicos e curtos, o grupo levará muito mais tempo para ter sinergia, para criar “a liga” que é percebida facilmente pelo público durante as apresentações.
Definir um nome para o grupo também é importante. É bom que todos do grupo acreditem neste nome, pois levará a identidade do grupo ao público.
Essas coisas são as primeiras e as mais fáceis.

Segundo passo:
Investimento
Nessa fase o investimento ainda não é necessariamente financeiro.
1. investimento de tempo para ensaio e estudo de cada um dos membros do grupo
2. investimento de tempo para pesquisa de repertório (internet, bibliotecas de partituras, flautistas, arranjos e novas composições)
3. investimento para preparar um repertório em conjunto
4. investimento para que o grupo faça aulas com um professor (para orientar um trabalho inicial do grupo, isso ajuda muito)
Depois que o repertório estiver ficando pronto será necessário fazer um investimento de tocar gratuitamente, sem compromisso, para um público, mesmo que pequeno. A prática de palco é muito diferente da prática de ensaios, pois existem coisas que acontecem no palco que não é possível ensaiar ou prever.
Gravar algumas peças em áudio e/ou vídeo para ouvir e avaliar o resultado, faz com que o grupo cresça também. Quando estamos tocando, temos uma percepção individual dos acontecimentos da performance em grupo. Essa experiência de gravar e todos avaliarem o resultado em conjunto, faz com que tenhamos uma percepção externa de um todo, o que facilita na busca pela identidade sonora e musical coletiva.
Fazer uma página do grupo na internet. Esta pode ser feita através de plataformas gratuitas como wordpress e/ou páginas em redes sociais. Isso ajuda a divulgar o trabalho e dar credibilidade a ele.
Fazer fotos de excelente qualidade para o grupo. Em um primeiro momento as fotos podem ser realizadas com uma boa câmera (em um tripé) e boas ideias.

Terceiro passo:
Divulgação e trabalho:
Essa fase, seguida de todos os passos anteriores, começa com a redação de projetos e releases, em seguida, com o envio desses para espaços culturais, saber e conhecer os editais de cultura da região em que vocês residem e do Brasil.
Nesse passo, o mais importante é não desistir. Dos mais de 5.000 projetos que enviamos no primeiro ano do Quinta Essentia, só recebemos retorno de 3 projetos. Dois dos contatos nos disseram: recebemos o seu projeto. Apenas um deu certo!
Ainda recebemos contatos de pessoas que receberam os projetos naquele ano. No ano passado fomos tocar em lugares que nos ligaram dizendo: Recebi um projeto de vocês em 2006, vocês gostariam de participar da nossa série de concertos neste ano???? 2012???
É um esforço e um trabalho enorme, que vale a pena! Nenhum trabalho é em vão. Nem que seja para que as pessoas saibam que vocês existem. O resto, vem com o tempo.
Em qualquer trabalho que tenha a proposta de ser profissional, é importante que os envolvidos tenham em mente de oferecer o melhor que podem dar. Isto quer dizer: ter o melhor equipamento disponível (no caso de músicos, nos referimos aos instrumentos), que o trabalho seja o melhor possível (por isso a grande importância de ensaios regulares), que o trato interpessoal seja o mais educado e cordial possível (afinal todas as pessoas são importantes nesse processo, seja como público ou como contratante), e o mais importante de tudo: que amemos aquilo que nos propomos a fazer, pois esta é a única forma de fazer bem e não sofrer com o esforço e com as respostas negativas.
Especialmente aos flautistas doces, fica a nossa recomendação: na medida do possível, troquem seus instrumentos de plástico por flautas de madeira de boa qualidade. Isto faz grande diferença na qualidade do som produzido, e mostra credibilidade ao trabalho.

O flautista Paul Leenhouts, convidado para a sexta edição do ENFLAMA, organizado pelo Quinta Essentia em junho passado, disse que nenhum grupo pode se considerar grupo com menos de 10 anos de trabalho regular. A fala dele foi: para um grupo sério, 10 anos de trabalho em conjunto não é nada. Veja o vídeo (em inglês) abaixo:
Ele fala com muita experiência pois fundou o Amsterdam Loeki Stardust quartet (www.loekistardust.nl) e o grupo de seus alunos, coordenado por ele, The Royal Wind Music (http://www.royalwindmusic.org/).
Excelentes trabalhos. Vale a pena dar uma olhada.
Até e boa sorte com a formação de novos grupos musicais!

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